Todo artista que recusou-se a fazer um desenho de graça talvez já tenha sido chamado de mercenário, pelo menos uma vez na vida. Mas quem faz essa acusação saberá, de fato, o que é um mercenário? O que significa essa palavra?
Consultando um dicionário, encontro três definições: 1) Aquele que trabalha por soldo ou estipêndio; 2) Quem trabalha apenas interessado no dinheiro; 3) Interesseiro. Naturalmente podem haver outras definições; porém, vamos analisar estas.
A primeira definição é discutível, pois "soldo" e "estipêndio" podem ser considerados sinônimos de "salário", que é "remuneração recebida em troca de serviços". Ou seja: todo trabalhador seria um mercenário, nessas condições, pois todo trabalhador recebe salário! Muito sem sentido, não?
Tentam ser melhores a segunda e a terceira definições...no entanto, se refletirmos, há algo de ingênuo nas duas: nos passam a impressão de vivermos em uma sociedade de seres iluminados que dá importância zero ao dinheiro! E, nessa sociedade perfeita, os artistas fazem o papel de malvados, únicos a pensar em coisas tão mesquinhas...
Na verdade, quem despreza bens materiais e pode abrir mão da maioria ou de todos eles, sem nenhuma hesitação é quem dá pouca importância a dinheiro. É o que nos ensinam várias filosofias e religiões. Diga sinceramente: quantas pessoas assim existem na sua família? Na rua onde você mora? Na sua escola e no seu emprego?
Caso uma pessoa diga: "Eu não ligo pra dinheiro" e dali a dez minutos confesse "não viver sem o celular à mão"...evidentemente sua primeira declaração é falsa: ainda que ela tenha ganho de presente o aparelho, alguém terá, obrigatoriamente, que desembolsar dinheiro para conseguir o celular (e pagar pelo uso, lógico).
Estou condenando a tecnologia? Não: com esse exemplo, procuro demonstrar que dinheiro e bens materiais são coisas interligadas; é sem sentido afirmar não dar valor a um se, no fundo, dá-se bastante importância ao outro. Assim se passam as coisas, no mundo real...
Para concluir: mesmo que "mercenário" signifique "interesseiro", a acusação soa estranha, na situação em que ela é feita: quem procurou o desenhista? A mesma pessoa que o acusa! Se ela quer a arte de graça, quem será a beneficiada, nesse negócio?
Apenas ela, é claro. Isso não é ser interesseiro?
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sexta-feira, 20 de novembro de 2015
Mercenário
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